O “Investimento da Moda” Deve Fazer Você Perder Dinheiro

27 de março de 2018 | Imprensa

Imagem - Fiduc

Você já deve ter ouvido falar sobre “aquele” investimento que foi “o melhor” no ano passado ou nos últimos meses – aquele que está “na moda”.

Pode ser que um amigo tenha contado sobre como a rentabilidade do fundo ABCD foi incrível ou pode ser que você tenha recebido um e-mail de seu banco ou corretora informando sobre o desempenho (sempre incrível) de algum fundo. Outra opção são as matérias que saem na imprensa, informando sobre como algumas pessoas ganharam rios de dinheiro com um tipo de investimento que teve rendimentos enormes – se você lembrou de Bitcoins, a ideia é essa mesma.

É da natureza humana, explicada pelas finanças comportamentais, que isso nos traga uma vontade quase incontrolável de investir nesses veículos, afinal, muitas pessoas ganharam dinheiro com eles e nós não estamos entre elas, o que pode ser muito frustrante.

Mas será que fazer investimentos nos produtos que tiveram melhor performance nos últimos meses ou poucos anos é mesmo uma boa decisão?

Os estudos sobre isso indicam uma resposta clara: NÃO!

A famosa frase “rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura”, presente de forma obrigatória em materiais relacionados à investimentos no Brasil e em muitos países, se mostra cada vez mais verdadeira.

De acordo com um estudo da Standard & Poor´s (o S&P Persistence Scorecard, do fim de 2017*), poucos fundos conseguem se manter no topo, de forma consistente. Em uma análise com 563 fundos americanos de ações que estavam no quartil de maior rendimento em setembro de 2015, apenas 6,4% se mantiveram nessa posição dois anos depois.

E esse quadro ainda piora: outro ponto destacado no estudo é que existe uma correlação forte que mostra que os fundos que tiveram as melhores performances passaram a ser os de piores performances. 23,45% dos fundos que estavam no melhor quartil foram para o pior quartil durante esse período. No entanto, o inverso não é verdadeiro. Assim, não pense que basta investir nos fundos de pior performance imaginando que eles serão os melhores depois de algum tempo.

Se os estudos são tão claros nessas demonstrações e fazem isso por tanto tempo (o consagrado livro de 1973 “A Random Walk Down Wall Street”, escrito pelo economista de Princeton Burton Gordon Malkiel já trata do assunto), então porque as pessoas continuam fazendo escolhas erradas e, mais do que isso, porque bancos e corretoras continuam fazendo propaganda nesse sentido?

Como vimos no início do artigo, os investidores possuem vieses comportamentais difíceis de superar e tomam decisões erradas com frequência. Já os profissionais podem ter outras motivações.

Do ponto de vista dos profissionais que assessoram os investidores distribuindo produtos, é muito mais fácil vender produtos que tiveram performances extraordinárias em um passado recente. A propaganda flui naturalmente e se transforma em algo que os clientes querem ouvir o que, portanto, aumenta as chances de vendas.

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Outro motivo – talvez mais profundo – é a questão do conflito de interesses. Como a maior parte dos investimentos é feito por meio de bancos e corretoras, cujos assessores são remunerados pelos fornecedores para venderem seus produtos – o que chamamos de modelo transacional – muitas vezes os interesses do cliente acabam não ficando em primeiro lugar.

Como já disse Peter Malouk, CEO da Creative Planning, uma gestora de recursos americana que tem US$65 Bilhões sob gestão, “compensation drives behavior”, ou, em tradução livre “a compensação direciona o comportamento”.

Essa empresa trabalha no modelo fiduciário, que em contraposição ao modelo transacional, é remunerada exclusivamente pelo cliente, evitando assim os conflitos de interesse.

Note como quase todas as vezes em que alguém fala sobre esses investimentos, existe um senso de urgência no assunto, exatamente como as lojas fazem com suas liquidações, que estão sempre, “para acabar”: “o fundo irá fechar para captações ou “essa oportunidade deve ser aproveitada agora” ou ainda “se não fizer nessa semana, na próxima pode não estar disponível” e assim por diante.

Esse tipo de discurso, que tenta criar urgência e escassez, também se aproveita dos conceitos de finanças comportamentais para fazer com que os clientes não reflitam muito a respeito e apenas vejam que os resultados de curto prazo são ótimos, o que indicaria que eles se repetiriam no futuro, o que, como vimos, não é verdadeiro. Sem refletir e com a emoção à frente da razão, as decisões são tomadas, sempre buscando “o melhor investimento”. O insucesso é frequente, ao menos para os investidores, uma vez que os vendedores dos produtos já ganharam suas remunerações, independentemente dos resultados.

Para fazer bons investimentos, precisamos contar com profissionais de primeira linha na assessoria, tanto na distribuição, quanto na gestão, além de termos claro quais são os conflitos de interesse existentes na relação, de forma a tentar reduzi-los ao máximo.

Outro ponto é que os investimentos devem ser coerentes com os objetivos e perfil de cada investidor e os resultados devem sempre ser analisados com visão sistêmica.

Via de regra, ter os “investimentos campeões” de um período de curto prazo, significa apenas que o investidor teve sorte e, como sabemos, a sorte muda com frequência.

Reflita sobre isso e busque melhorar suas decisões de investimento, sem cair mais no velho truque da “imperdível liquidação que está para acabar”. Como os estudos indicam, seus resultados ficarão consistentemente melhores!

*https://www.spglobal.com/our-insights/Does-Past-Performance-Matter-The-Persistence-Scorecard.html