Num momento em que as plataformas de investimentos se engalfinham para atrair escritórios de agentes autônomos estabelecidos, algumas instituições lançam mão de uma nova frente para crescer sua base de assessores. A Genial Investimentos, braço de varejo do banco Brasil Plural, e o grupo XP Investimentos estão com programas de formação no mercado em parceria com a Saint Paul e o IBMEC, respectivamente. A ideia é proporcionar um atalho para a certificação da Ancord, uma exigência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), uma licença de trabalho para quem atua na distribuição de investimentos.

Como contrapartida, as corretoras tentam casar a formação com um futuro vínculo de agente autônomo com as suas plataformas. A Genial reembolsa o valor do curso para quem passar no exame da Ancord e se plugar à sua rede, enquanto na XP quem passa pelo programa entra no radar da área de expansão e pode se tornar sócio de algum dos mais de 600 escritórios vinculados à instituição.

“A concorrência está brigando, virou um jogo de rouba-montes. Apesar de estarmos competindo nessa frente também, a ideia é despertar o interesse do jovem que acabou de se formar a se tornar uma agente autônomo”, diz Claudia Simon, sócia e diretora comercial da Genial. “Vamos dar as bases de capacitação e treinamento e também ir atrás do profissional que já está no mercado.” Tipicamente, a busca é entre comerciais de bancos, seja do varejo ou do private banking e que tenham como principal função atender clientes.

O programa da Genial pôde ser materializado por meio de uma parceria com a Saint Paul, na sua plataforma de ensino à distância, com um curso preparatório de 70 horas.

Conforme cita Adriano Mussa, sócio e diretor acadêmico e de inteligência artificial da entidade, o último relatório do Fórum Econômico Mundial sobre o futuro do trabalho coloca a função de “financial advisor” – o que seria equivalente aos agentes autônomos ou consultores de investimentos brasileiros – entre as dez profissões mais promissoras.

“Faz todo sentido quando se compara nosso mercado com o dos Estados Unidos, o número é muito baixo aqui ainda”, diz. Ele acrescenta que a pesquisa contou com entrevistados brasileiros, o que só reforça essa tendência para o país.

No mercado americano há 415 mil profissionais dedicados ao aconselhamento financeiro, espalhados por 12,6 mil escritórios associados à Securities Exchange Commission (SEC, a CVM americana), segundo a Investment Adviser Association (IIA). A custódia originada nessas instituições equivalia a US$ 82,5 trilhões ao fim de 2018, com o varejo de alta renda respondendo por 81,8% desse bolo.

No Brasil, há cerca de 5 mil agentes autônomos, segundo a Associação Brasileira de Agentes Autônomos de Investimentos (Abaai), com a XP com mais de 3,8 mil profissionais. O grosso do dinheiro do brasileiro está, entretanto, ainda nos grandes bancos. Dos R$ 2,9 trilhões investidos pela pessoa física nos segmentos de varejo e private banking, apenas uma pequena fração está nas casas independentes. A XP, a maior do país, tem cerca de R$ 230 bilhões em custódia. Uma fatia de 49,9% do capital da plataforma está, porém, nas mãos do Itaú.

O preparatório da Saint Paul custa R$ 99 ao mês e dá acesso aos demais conteúdos digitais da escola de negócios. De acordo com Mussa, as ferramentas de inteligência artificial trazem simulados que permitirão ao aluno saber se está apto a ser aprovado na certificação da Ancord ou se terá que revisar algum tema específico antes da prova. Paralelamente, a entidade formata a quatro mãos com a Genial um MBA com foco em investimentos.

Foi esse caminho que a XP tomou ao criar, por meio do seu braço de educação Infomoney, um MBA em investimentos e private banking em parceria com o Ibmec. São 12 meses de aulas on-line passando pelas bases do mercado financeiro, fundos, imóveis, criptomoedas e derivativos, além de conteúdo preparatório para as provas da Ancord e da Anbima. O programa inclui palestras com gestores de recursos e uma aula especial com o sócio-fundador e executivo-chefe da XP, Guilherme Benchimol. O custo parte de R$ 15,6 mil divididos em 15 ou 17 parcelas.

Paralelamente, a Planejar, responsável pela certificação internacional CFP no Brasil, de planejador financeiro, viu um aumento na procura por esse tipo de qualificação nos últimos anos. De 2016 a 2018, a procura pela certificação CFP (Certified Financial Planner) aumentou 27%, somando mais de 9 mil inscritos para o exame, com 1.816 planejadores financeiros certificados no período. A certificadora está com inscrições abertas para os próximos exames, em abril e agosto, e fechou parceria com a Practa para o material oficial de estudo para o exame.

A profissão de planejador financeiro não é regulamentada no Brasil e a certificação CFP funciona como um selo de distinção para profissionais que atuam na assessoria à pessoa física.

É nesse perfil de profissional que a Fiduc, empresa de planejamento financeiro e gestão de patrimônio, se fia para ganhar capilaridade no Brasil. A academia Fiduc, o braço educacional, é um dos principais pilares da empresa com um programa de formação de 100 horas numa plataforma on-line. A companhia entrevistou cerca de 800 pessoas, das quais 250 participaram da primeira etapa, com 160 delas se tornando sócio. A diferença do planejador para o agente autônomo é que a remuneração vem do investidor e não de comissões pelos produtos que sugere aplicar.

Fonte: Adriana Cotias, Valor Econômico
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